Eu queria ser bombeiro



Quando eu era pequeno tinha um sonho meio diferente, igual a quase 100% das crianças da minha época, mas para mim, diferente. Sonhava em ser BOMBEIRO.
Com certeza, a culpa desse sonho coletivo da garotada da minha época é do Cinema em Casa e Sessão da Tarde, com aqueles glamorosos filmes, inéditos, onde bombeiros sempre salvam as lindas donzelas no final. No nosso caso, queríamos sempre salvar a mais bela da classe que, geralmente, era a paixão secreta de todos os meninos da sala e não dava bola pra ninguém, da nossa sala.
Na adolescência, me vi com um talento limitado para o futebol, mas com um sonho do tamanho do mundo: ser jogador profissional. Como na adolescência tudo é fase, sonhei em ser policial, engenheiro, dono de puteiro (esse sonho tenho até hoje), médico, dentista, surfista, desenhista, dono de puteiro (novamente), fazendeiro e mais um monte de coisas que nem sei se são profissões de verdade. Sonhei também em fazer nada da vida e acho que foi o que cheguei mais perto de ser.
Ah! Nesse período comecei a malhar, ganhei quase uns três centímetros no braço direito e uma facilidade incomum de imaginar histórias, fantasias e outras coisas imensuráveis antes das 22h. Vera Fischer, acreditem, protagonizou muitos papéis importantes em meus teatros mentais, antes da idade e o bisturi transformá-la definitivamente. Malhei muito pensando nela.
Vieram os 18, vestibulares, festas e namoradas, a primeira, segunda e terceiras paixões. Traições de cá pra lá e de lá pra cá. Cheguei à faculdade.
Com uma imaginação incrivelmente fértil e um talento natural para contar mentiras. Mentiras não, fazendo uso das ferramentas retóricas, vamos adequar esse início de parágrafo: _Com uma imaginação incrivelmente fértil e um talento natural para inventar histórias (não ficou melhor?), fui escolhido pela Publicidade e Propaganda. Ralei, ralei e me formei. Aconteceram algumas coisas entre o primeiro dia de curso e o último, mas vamos pular essa parte, pois é código de honra não revelar os segredos de uma graduação. É igual Maçonaria, tem segredos, mas só os sabem quem entrar.
Veio o trabalho, geralmente das sete às 22 e tantas horas, bebidas, pizza todos os dias, barriguinha (mentira, uma senhora barriga) e muitas contas. O retorno financeiro como publicitário não é bem o que eu imaginava. Pra falar a verdade, não chega nem perto do que eu imaginava. O trabalho sim, esse é exatamente o que eu pensava, com um adicional de 100% a mais de trabalho e 200% enchessão de saco do cliente, 300% do diretor e 400% do atendimento. Fdp do atendimento. Aquela história de que publicitário fica em um ambiente arejado, vai trabalhar de bermuda e chinelo, leva o cachorro para descontrair e tem um mês e meio para sair uma ideia criativa é coisa de filme. Esqueçam isso.
Hoje tenho um sonho. Voltar a ser criança e começar tudo do zero. Lógico que desta vez vou estudar um pouquinho mais e tentar ser engenheiro. Malhar para as paniquetes, porque a coitada da Vera não levanta nem inspiração de condenado à perpétua. Mas é sacanagem, estou reclamando de barriga cheia. De verdade. Ser publicitário é sonhar e realizar sonhos todos os dias. Têm pesadelos também, mas quando aparece, a gente usa de job para a próxima campanha.
No final de tudo, descobri que ser publicitário é quase a mesma coisa que ser bombeiro: apagamos fogo todos os dias, salvamos clientes, deixamos alguns morrerem propositalmente (mentira), damos plantões intermináveis e vivemos a adrenalina de correr risco de morte (podemos enfartar a qualquer momento). Apenas duas coisas os bombeiros têm que não temos: as donzelas que não salvamos (mas, acredito que para cada 1000 mulheres que eles salvam, uma é gata, enquanto mais de 60% das mulheres que usamos em nossas campanhas são gatas) e a farda, neste caso, me contento com calça esquine, camisa gola polo, tênis casual, óculos peculiar e é claro, blazer sport.

Wilker Magbis da Silva (PUBLICITÁRIO )

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